Dia onze de março. Acordei com a idéia fixa de que deveria ligar para a bachan para dar-lhe parabéns por mais um ano completado. Paro em frente a televisão e algo surreal é avistado.

O que era aquilo? Espere, tenho que ir para a aula. Fui sabendo apenas do terremoto, e com o coração na mão.

No caminho, uma senhora residente em Yokohama descrevia a situação. Estavam todos, ou quase todos, bem, mas muito assustados. Com um sentimento de alívio, segurei o choro, desci do carro e fui recebida com um "Nossa, Ayumi, que cara de sono!".

Perceba que, neste momento, meu pai, meu tio e sua família, assim como outros parentes, moram e fazem a vida em terras nipônicas.

Como se sabe, todo dia a aula tem inicio com uma meditação. O tema? Meu professor ligou o projetor e passou a imagem que se assemelhava a caixas de papelão arrastadas por um rio. Não. Eram carros, casas, embarcações: tudo sendo levado por uma onde gigante.

O que sentir numa hora dessas? O que esperar que os outros façam? Estou aqui, do outro lado do mundo, mas com o pensamento lá.

O que eu dizia ao me apresentar a estrangeiros? "I was born in Japan, but I'm living in Brazil now".

Não me considero mais digna de me chamar "japonesa" ou lembrar de que nasci lá. Alguém que passou mais da metade da vida num lugar tão superficial e digno de pena como esse Brasil não tem dignidade para dizer "Eu sou um japonês".

Os problemas continuam. Ameaças atômicas, sísmicas e tsunamísticas permanecerão por sabe-se lá mais quanto tempo.

Que os japoneses consigam virar o jogo, mais uma vez. Acredito nisso. Quero acreditar nisso.


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