TATEMAE: PSEUDO-MORALISTA. HIPÓCRITA. DEMAGOGO.

 

HONNE: Não é impossível compreender, de fato. Não sou dada, em verdade, a análises superficiais, fáceis, e penso que isto justifica o longo tempo que invisto, consciente e inconscientemente, em refletir a respeito de todo e qualquer evento. O que me surpreende, nesta inédita situação, é a extrema necessidade de despedir-me - talvez eu jamais o tenha feito. Contemplo o aprendizado. Não estou em situação de fazer abordagem adequada, para os meus critérios, de sua postura. Minha intuição diz que talvez você ainda seja, internamente, o mesmo - antes de qualquer contato que o tenha, em termos muito discutíveis, maculado. Afinal, quando adquirimos nossos reais valores? Até que ponto seremos sempre guiados por eles, em última instância, ainda que oscilemos despudoradamente entre santidades e infernos? Não lamento minha educação, minha moral - que seu povo sequer é capaz de conceber como tal -, o que entendo, de forma cristã, como amar ao próximo como a mim mesma. Eu sequer estou me defendendo, que não vejo quem tem possa me atacar com um julgamento. Não é dado a nós, cá no Ocidente, este direito; e não será dado alegar desconhecimento da Lei. Pois bem. Felicito-o por ter sido capaz de "redenção", suprema misericórdia de sua esposa e mãe de seu filho, que mulher como ela de modo algum envolveria-se com alguém como o que você se tornou - e sei que sabe disto - se não fosse capaz de perceber seu eu-real. E é este, acredito, o mais importante. Feliz ou infelizmente, embora seja quase impossível até mesmo cogitar, compartilhamos eu e sua consorte de uma mesma opinião, neste estranho momento: é hora de encerrar o que se tornou um triste espetáculo. É pena que, ao menos por agora, eu seja incapaz de lembrar com afeição de um tempo em que fomos lúdicos. Percebo que perdemos completamente o estranho modo de nos respeitarmos que tínhamos. Sendo assim, por fim, já que não mais nos respeitamos: respeite ao menos a sua esposa e a sua família, e dedique-me a indiferença, que será totalmente correspondida. Adeus, "amigo".

 

Não, não vou tecer explicações sobre esta configuração exótica de honne e tatemae. Pois que interpretem como quiserem - ou melhor, puderem. Sou brasileira.

 

 

 

 

Que demônios me tomam, que me impedem de discurso organizado, em situações extremas, perante meu único interlocutor real, não sei dizer. Quantas víboras viscerais planejei ser sequer me lembro. Ao fim: por alto, meu pai foi informado sobre minha real situação psíquica, o que era a última coisa que pretendia com ele compartilhar; foi informado de minha incapacidade em relação à nicotomania - agravada, talvez, pela supracitada insanidade...

Há coisa qualquer em meus antebraços e mãos que me impede de digitar com a destreza usual. Efeitos colaterais? Resultado da abstinência de glicose, cafeína e nicotina por dois ou três dias? Não o sei.

Do mais... O "bom" filho à casa torna, e tão secretamente que à parte de mim mesma, eu ainda os ouço. Não, não falo de alucinações e/ou alucinoses... Não falo de coisa alguma contestável pela ciências médicas.

E ainda estou a esperar que seja transitória, a psicose não-especificada.

(Sinto como se estivesse a erguer esferas de metal e correntes pesadíssimas com os braços. Interessante.)
 

[DISCURSO INFLAMATÓRIO A ABAIXO...
A quem devo pedir perdão por meus cigarros? E por que eu deveria fazê-lo, se não estou arrependida?
Ah. Crianças, claro. Como se, em algum momento, fosse eu responsável pela educação de alguma delas.
Eu, que tal qual Brás Cubas, não serei aquela a transmitir a outro ser a maldição de existir (e tanto pior se com meus genes!).
E que fique aqui registrado: existe uma probabilidade tão MÍNIMA, que quase ridícula, de que eu lecione, em um futuro distópico, confesso. MAS! Estarei para sempre indisponível como exemplo de conduta. Tanto que o único meio de conquistar o cargo e manter-me nele é o concurso público.
JAMAIS ME DISPUS A LIDAR COM A ETIQUETA PEQUENO-BURGUESA.
Pois que reclamem desde já sobre meu histórico psiquiátrico, minha amoralidade tropicana, meus vícios e possivelmente da cor de meus cabelos e meus jeans destroyed: ora vejam! Estarei tranquilamente longe de suas honorabílissimas escolas particulares, e mesmo das escolas públicas dos bairros "nobres" (porque sim, a meta é ir e voltar do trabalho caminhando).
Não é sobre Lewis Caroll, atenção:
- CORTEM AS CABEÇAS!!!
Não, não acredito que estes pedantes pré-adolescentes e adolescentes estarão de braços abertos para minha bizarrice. Pois que pouco me importa! Minha missão será apenas torná-los ainda mais arrogantes; e que se arroguem com razão para fazê-lo, somente isto. Não estaremos em uma obra ficcional.
Hmpf!

...FIM DO DISCURSO INFLAMATÓRIO]

(Por mil infernos, que ideia é esta me ainda me persegue como uma maldição cigana de ter, no mínimo, um bacharelado e uma licenciatura para lecionar para o Ensino Fundamental II e para o Ensino Médio? Não quaisquer EF II e EM, mas especificamente o periférico; ainda ontem facultava disciplinas como "Literatura Africana em Língua Portuguesa", "História dos Povos Indígenas e Afrodescentes"... Não, não é certo o meu retorno ao bacharelado. Me parece que, insconcientemente, estive a tramar uma revolução.)

Sinceramente? Em verdade, vos digo: gostaria de que o fato de que ainda não pude fazer minha manicure fosse a minha real maior preocupação.

TO DO LIST? REAL WISH LIST!

Lavar louça, limpar quarto, fazer peeling natural, preparar unhas para manicure, banho, manicure, lavar/guardar roupas, encontrar o carregador de meu smartphone (que o tenho carregado ligado ao desktop, e isto é absurdo...), continuar a tentar contato confiável com a minha unidade-pólo... Esperar que o bar reabra e eu possa comprar cigarros a preço módico... Sim, porque um maço não me bastará... Sr. Gil, do bar, está desaparecido há alguns dias - dos mistérios que assolam o bairro.

 

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Update: encontrei o bar reaberto. Sr. Gil sequer esteve descansando; disse-me ter trabalhado em uma construção e ficado fisicamente impossibilitado de vir ao seu comércio. Bem, cá estou com alguns cigarros novamente. E ocorrem-me coisas como atear fogo ao computador, por motivos indescritíveis. Tão indescritíveis que me vi forçada a fazer um novo diário virtual. Que seja. "Vírus", disseram-me, quando do começo deste desolamento, em 2005. Tsc.