TATEMAE: PSEUDO-MORALISTA. HIPÓCRITA. DEMAGOGO.
HONNE: Não é impossível compreender, de fato. Não sou dada, em verdade, a análises superficiais, fáceis, e penso que isto justifica o longo tempo que invisto, consciente e inconscientemente, em refletir a respeito de todo e qualquer evento. O que me surpreende, nesta inédita situação, é a extrema necessidade de despedir-me - talvez eu jamais o tenha feito. Contemplo o aprendizado. Não estou em situação de fazer abordagem adequada, para os meus critérios, de sua postura. Minha intuição diz que talvez você ainda seja, internamente, o mesmo - antes de qualquer contato que o tenha, em termos muito discutíveis, maculado. Afinal, quando adquirimos nossos reais valores? Até que ponto seremos sempre guiados por eles, em última instância, ainda que oscilemos despudoradamente entre santidades e infernos? Não lamento minha educação, minha moral - que seu povo sequer é capaz de conceber como tal -, o que entendo, de forma cristã, como amar ao próximo como a mim mesma. Eu sequer estou me defendendo, que não vejo quem tem possa me atacar com um julgamento. Não é dado a nós, cá no Ocidente, este direito; e não será dado alegar desconhecimento da Lei. Pois bem. Felicito-o por ter sido capaz de "redenção", suprema misericórdia de sua esposa e mãe de seu filho, que mulher como ela de modo algum envolveria-se com alguém como o que você se tornou - e sei que sabe disto - se não fosse capaz de perceber seu eu-real. E é este, acredito, o mais importante. Feliz ou infelizmente, embora seja quase impossível até mesmo cogitar, compartilhamos eu e sua consorte de uma mesma opinião, neste estranho momento: é hora de encerrar o que se tornou um triste espetáculo. É pena que, ao menos por agora, eu seja incapaz de lembrar com afeição de um tempo em que fomos lúdicos. Percebo que perdemos completamente o estranho modo de nos respeitarmos que tínhamos. Sendo assim, por fim, já que não mais nos respeitamos: respeite ao menos a sua esposa e a sua família, e dedique-me a indiferença, que será totalmente correspondida. Adeus, "amigo".
Não, não vou tecer explicações sobre esta configuração exótica de honne e tatemae. Pois que interpretem como quiserem - ou melhor, puderem. Sou brasileira.
